scars
Maio 11, 2009
Logo agora que eu havia reconhecido alguma beleza nessa minha ignorância. Naquela insistência devota, quase velada, em cometer os mesmos erros sempre outra vez. Ah, mas tão inquestionáveis eles eram! Tão cândidos e desvairados e meus.
Detestáveis. Afinal, qual o sentido de não aprender nada? Detestáveis. Minha pequena semente de árvore perfeita, meu cordão umbilical e a minha vez de morrer.
E eu morri quantas vezes? Será a conta dos membros que me fisgam e faltam, ou a soma dos dedos que enumeram os rasgos? Meus erros grotescos e incontritos enterrando-me em tardes chuvosas, revirando com pá terra revirada, e não sei eu mais das vezes que precisei me arrastar de volta.
Mas logo agora! que eu podia jurar estar certa o tempo inteiro! Logo agora eu tenho medo que me levem o carro com insuportáveis problemas mecânicos.
Tenho medo de ciúmes alheios protegidos.
Tenho medo de que a água entre nos meus pulmões.
Tenho medo do findar da paciência
Tenho medo que minhas páginas não sirvam pra nada; e que nada sirva para minhas páginas
Tenho medo daquelas promessas doces de cuidado, quando minha fragilidade me parece cada vez mais débil e dura
Tenho medo de morrer
Logo agora que parecia tão bonito…
gnômon
Maio 6, 2009
Eu quero um relógio de sol lá no quintal, para o tempo brincar de rodopiar e me deixar em paz.
flor-de-chuva
Abril 20, 2009
Ana Gabriela me acordou às 7 horas.
E chove tanto que, apesar dos livros que me esperam ali calados e impreteríveis, foi apenas esse ímpeto de dizer dela qualquer coisa o que me fez levantar da cama aconchegante, tão quentinha, dentro de uma manhã chuvosa que se desmancha contra a janela do meu quarto.
É que ela me chama de pequena. :~ E me desfaz fácil em um sorriso bobo.
É que ela alongou meus dias, quando plantou seu sorriso tão tão lindo lá no fim da tarde.
É que ela não fala o “D” tireito, e não faz idéia de como isto é incrivelmente fofo =x
Alias, ela habita permanentemente sob a linha gráfica da fofura.
Ela me deu um cacto, mas é flor-de-chuva, pois foi a chuva quem a trouxe de repente, e tem chovido desde então.
Ela é linda. Sabe? Bem linda. E me faz rir o tempo todo. E, é, admito, às vezes fala palavras cujo significado eu desconheço. E é impaciente mas adorável. Ela é o lugar para onde meus pensamentos escapam a todo ensejo.
E é que na segunda vez que a gente se viu, ela disse: “Passei o dia pensando em ti. E só estou falando isto porque estou bêbada.”
E todas as vezes seguintes têm sido meus momentos mais encantados.
É que eu gosto tanto, mas tanto, que a saudade acusa a falta, apesar da presença diária.
É que ela me chama de pequena.
Ana Gabriela é meu sorriso mais fácil.
Quartas-feiras
Abril 8, 2009
“Tenho um amor (…) com gosto de chuvas e raios e urgências. Tenho um amor que me veio pronto, assim, água que caiu de repente, nuvem que não passa. Me escorrem desejos pelo rosto, pelo corpo. Um amor-susto. Um amor raio-trovão, fazendo barulho. Me bagunça. E chove em mim, todos os dias.”
Caio Fernando Abreu
beijosnãomeliga
Março 17, 2009
Que há da dor, que anda calada?
Perdeu a cor, coitada
Não come mais, não vê o dia
Não quer saber de poesia
Refez as malas e embarcou num fim de tarde
be still
Fevereiro 27, 2009
Shh!
Não vá quebrar o silêncio
Não vá dobrar em minhas avenidas
Guarde a saliva
E o gosto do tempo
Esquece o sereno
Meu tenro relento
E o vento!
Que vento?
Shh!
.
.
.
.
Ela quase se foi por um instante…
A paixão
Fevereiro 14, 2009
“A paixão é como um Deus, que quando quer me toma todo o pensamento. Dirige os meus movimentos, meu passo é dela, meu pulso é desse Todo-Poderoso sentimento.”
É uma sensação engraçada. Essa de ser uma eterna apaixonada, romântica e desesperada, e nem mesmo saber por quem. Sabe, chorar com novela, escrever mil poemas, compor canções absurdas sem vocativo algum.
Ela foi embora, da minha vida e dos meus sonhos, e deixou o sentimento.
Deixou saudade não sei de quê, que eu não lembro mais do cheiro.
Mal lembro da voz ou do jeito de falar. Eu lembro dos versos que existiam em mim, lembro que me encantava o jeito de andar, mas eu não sei. Não sei mais como era. Não sei de como era o toque, não sei de como era a felicidade. Dela, o único gosto do qual me lembro é o da ausência, como se não houvesse existido nenhum outro mais.
Eu não lembro mais dela.
O fantasma putrefez-se, perdeu a carne, os cabelos, as expressões. E o sentimento? Ficou. Igual.
E não vai embora.
Ao menino-poeta
Fevereiro 9, 2009

A gente perde o passo,
Ausente do presente.
Faz frente e desiste.
Resiste, Ressente, Remite.
Reinventa um poente:
De guache e sal, o sol
O céu de aguardente.
A gente nunca aprende,
Parece gente grande.
Esquece que é pequeno,
Por caber no peito o mundo.
Mas a gente quase entende,
Que é por causa disso tudo
Por todo sonho desiluso
Que a gente é gente…
De repente.
Imagem: Sol do Japão, guache sobre duplux, Plínio Renan
Das Páginas
Fevereiro 5, 2009
O novo dia era sempre um novo dia, embora Vitória insistisse em reescrevê-los todos iguais. Não como um filme, não como uma seqüência inalterável de cenas. Não. Os dias eram iguais porque a dor era igual. Eram iguais os medos e as cômodas que ela tateava no escuro, na esperança tão vã de encontrar por ali esquecida a velha morfina.
Ah, o novo dia era a ela sempre antigo conhecido. Em algum momento suas noites haviam cansado de ser noites, resignaram-se em ser somente partes escuras de um dia longo demais. Afinal, quem arbitrara ao sol todo recomeço? Quem fez da lua todo apogeu? Mas apesar de Vitória, uma nova manhã nascia, e talvez por simples rebeldia recusou-se em adentrar o quarto e a cama. Apenas espreitou pela janela a moça sozinha que encarava o teto, e a manhã não pôde deixar de olhá-la, sempre distante, quiçá espantada com a insólita vigília dentro do quarto.
A moça não lutava contra o peso do próprio corpo, a moça não tinha nada que escapasse dos olhos, que não as sombras da alma. Pela primeira vez em tanto tempo havia música no quarto. Não dança, não festa, apenas música. Uma canção triste que os fins de tarde já se habituaram a ouvir, mas que à manhã frágil de abril comoveu afavelmente, cobrindo de lágrimas os olhos febris.
Era só mais um dia que começara em sol e desfizera-se em chuva.
Cá
Janeiro 30, 2009
Unhas
Abrem passagem
Cavam a carne
Fora!
Mas a dor é pesada,
O sangue ligeiro.
Inunda os rasgos
Obstrui a tragos
Corre feito preso liberto.
Cínico!
Oportunista!
Lâminas
Foices
Setas
Projéteis
Abrem condutos
Duzentos percursos
Fora! Fora!
Saem todas as vísceras.
A dor ajeita o travesseiro
Deita de lado
Tira um cochilo.